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Da nossa psicóloga: Nestes tempos, cuide de si e da sua família

A pandemia de COVID-19 tem trazido preocupação a todos nós, que estamos às voltas com a saúde da classe trabalhadora. Como um coletivo que vende sua força para garantir sua sobrevivência, estamos todos sendo impactados de alguma maneira. Nos movimentos sindical e político isso não é diferente.


Bom, para começar, é difícil estabelecer regras gerais, uma vez que cada realidade de trabalho e de rotina pessoal de vida colocam particularidades distintas. É preciso pensar nisso de forma situada, de acordo com as condições de cada setor, de cada função e da cada trabalhadora e trabalhador. Essa nova realidade e as novas formas de se relacionar trazem novas formas de fadiga e estafa mental para todos nós.


A realidade de trabalho invadiu, definitivamente, nossas casas e nossas intimidades, é preciso cuidar disso. Então, um ponto crucial é entender que em período de lidar com o novo haverá estresse e mais cansaço, portanto, não há de se falar em produtividade “normal”. É preciso ter flexibilidade com isso.

Flexibilidade por parte dos sindicatos e instituições e também por nós mesmas(os), de entender que não conseguiremos produzir “tanto” ou até compreender que em certos dias não faremos quase nada. É importante entender que está tudo bem com isso. Em um mundo “normal” isso já era algo a ser debatido e cuidado, neste momento, isso se faz ainda mais necessário.


Estudos já têm apontado que a realidade virtual intensa tem nos cansado mais, que a falta de contato físico e interações sociais trazem impactos negativos à nossa saúde mental. Nos movimentos sindical e político, as jornadas já extenuantes parecem ter ficado ainda mais estafantes e pesadas. Fiquemos atentos.


A realidade externa, sanitária, política, social, econômica, etc, tem trazido, obviamente, suas tensões, que são “naturais”; portanto, estamos tensos e receosos, por mais que pensemos que não. Nossa realidade e nossa vida foram todas alteradas. Mais uma vez, um motivo para não se cobrar tanto. Então, sigo para uma dica rápida: estabelecer metas diárias e semanais, todas plausíveis considerando a realidade; nenhuma meta que não possa cumprir. É preciso ajustar as expectativas para não se frustrar e causar ainda mais sofrimento.


Então, faça agendas diárias e semanais, com horário de acordar, trabalhar, descansar, almoçar, lanchar, ter lazer e até mesmo não fazer nada.  Tente seguir essa agenda, de forma a se sentir satisfeita no fim de um dia e de uma semana. Mas também tenha flexibilidade e guarde espaço para imprevistos. Se as demandas de trabalho têm estado perdidas, sem horários estabelecidos, precisamos conversar sobre isso e nos organizar, todos precisamos de horários para tudo.


Se tínhamos o costume de descansar aos fins de semana, continuemos fazendo; fim de semana é fim de semana, ponto. Se for necessário desligar a internet em determinadas horas do dia, faça. Embora tenhamos que conviver com prazos, na maioria das vezes apertados, emergências deverão ser consideradas como emergências, compense as horas depois de gastar parte do seu tempo de descanso com trabalho ou estudos. 

Isso parece impossível no movimento sindical e não era costume para nós, nem em tempos “normais”, mas agora é preciso ter cuidado. Tente fazer suas tarefas com atenção plena, ou seja, se pegou para fazer algo, só faça aquilo até terminar. Mas claro, intervalos para esticar o corpo e recarregar a energia são necessários. Isso serve para que não haja ainda mais frustração e impacto em sua saúde mental.


Mas, não nos esqueçamos de uma outra realidade, muito preocupante, daquelas e daqueles que estão em situação de precariedade, que não têm como exercer suas atividades em casa, que precisam lidar com o medo e os riscos diariamente. Aquelas e aqueles que estão perdendo seus empregos ou tendo suas rendas reduzidas, ou os informais que estão lidando com uma grave crise. Isso tudo é demasiadamente pesado. Estamos falando da saúde de famílias. Nesse momento, a importância e o papel de governanças devem se fazer presentes e garantir a sobrevivência de todas e todos os afetados.


Ainda nos lembremos das diversas categorias de profissionais que estão na linha de frente ao enfrentamento dessa pandemia, seja cuidando de doentes, seja garantindo a limpeza de nossas cidades ou o abastecimento de nossas casas. Não nos esqueçamos das mulheres, que tiveram suas cargas de trabalho intensificadas e, infelizmente, aquelas em situação de violência doméstica. Estudos já nos indicam que, em algumas cidades, a violência contra as mulheres cresceu 50%!

Neste momento, mais do que nunca, lembremos que somos classe, que somos trabalhadoras e trabalhadores, cuidemos de nós mesmos e uns dos outros, sejamos solidários e ofereçamos, na medida dos nossos possíveis, acolhimento e afago aos nossos.


Por Julie Amaral – Psicóloga do Trabalho Sindieletro/MG

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